Em várias ocasiões o Papa Francisco provocou as multidões a cantarem uma canção que corre o mundo, com poucas palavras e conteúdo profundo e definitivo: “Vive Jesus o Senhor, vive Jesus o Senhor! Ele vive, vive, vive, vive, vive Jesus o Senhor”. Recentemente publicou a Exortação Apostólica Pós-Sinodal chamada “Christus vivit”, com esta proclamação fundamental, que ressoa para todos nós, nesta Páscoa. De fato, assim diz o Apóstolo: “Se com tua boca confessares que Jesus é Senhor e, no teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10,9). Nossa fé se renova nestes dias, conduzindo-nos ao coração da vida cristã, que se atualiza na Páscoa. Este é o nosso desejo, estes são nossos votos pascais.

Estamos saindo da “quarentena”, com a qual a Igreja nos ofereceu os remédios para a conversão: a oração, a penitência do jejum e da mortificação e a caridade, que unge todos os exercícios quaresmais. Quem soube aproveitar as graças oferecidas pôde chegar especialmente ao Sacramento da Reconciliação, preparando-se adequadamente para celebrar a Páscoa, com o Cristo que vive.

Um tríduo: Páscoa da Ceia, Páscoa da Cruz e Páscoa da Ressurreição. Começamos a celebrar a Páscoa, que dura um período maior, um dia de três dias. Na tarde-noite da Quinta-feira Santa, a Páscoa da Ceia, quando recordamos e tornamos presente a instituição da Eucaristia, repetimos o lava-pés, para aprendê-lo de novo com o Senhor, além de acolhermos o mandamento que está mais a peito de Jesus, aquele que é seu e é novo: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”! (Jo 13,34; Jo 15,12) Depois velamos com o Senhor em oração e adoração diante de sua presença no Santíssimo Sacramento, pois ele vive. Ele não morre mais! Na Sexta-feira Santa, Páscoa da Cruz, queremos olhar o mundo e as pessoas a partir de dentro do peito do Senhor, quem sabe, olhando pela fresta aberta pela lança! Sua morte é vitoriosa, pois nela morreu a nossa morte, a escuridão, a tristeza e o pecado. Neste dia, o encontro com Maria, as sete palavras de fogo e de vida eterna pronunciadas na Cruz, para chegar à morte, com a qual proclamamos que nela está a vida, porque nela está o amor maior, com o qual ele vive!

Um Retiro! Para acolher no coração os dois primeiros dias da Páscoa e prepara-nos para a grande Vigília, a Igreja nos propõe um dia de silêncio, o Sábado Santo. Já que ele vive, podemos aproveitar para deixar de ser meros expectadores. Vale a proposta de São Gregório de Nazianzo: “Façamos o que nos sugerem as palavras: imitemos com os nossos sofrimentos a Paixão de Cristo, honremos com o nosso sangue o seu sangue, e subamos corajosamente à sua cruz. Se és Simão Cireneu, toma a cruz e segue a Cristo. Se, qual o ladrão, estás crucificado com Cristo, como homem íntegro, reconhece a Deus. Se por tua causa e por teu pecado ele foi tratado como malfeitor, torna-te justo por seu amor. Adora aquele que foi crucificado por tua causa. Preso à tua cruz, aprende a tirar proveito até da tua própria iniquidade. Adquire a tua salvação com a sua morte, entra com Jesus no paraíso, e saberás que bens perdeste com a tua queda. Contempla as belezas daquele lugar, e deixa que o ladrão rebelde fique dele excluído, morrendo na sua blasfêmia. Se és José de Arimatéia, pede o corpo a quem o mandou crucificar; e assim será tua a vítima que expiou o pecado do mundo. Se és Nicodemos, aquele adorador noturno de Deus, unge-o com perfumes para a sua sepultura. Se és Maria, ou a outra Maria, ou Salomé, ou Joana, derrama tuas lágrimas por ele. Levanta-te de manhã cedo, procura ser o primeiro a ver a pedra do túmulo afastada, e a encontrar talvez os anjos, ou melhor ainda, o próprio Jesus”. (Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo, (Oratio 45,23-24: PG 36,654-655 – Séc. IV). Aproveitemos bem, porque ele está vivo e atento à nossa resposta!

Se vivo está, nós o encontramos na Grande Vigília da Noite Santa, a Páscoa da Ressurreição. As velas a serem acendidas no Círio Pascal expressem que está acesa a nossa fé! Mais uma vez, neste ano de 2019, proclamamos: “Cristo ontem e hoje, princípio e fim, alfa e ômega! A ele o tempo e a eternidade, a glória e o poder, pelos séculos sem fim! Por suas santas chagas, suas chagas gloriosas, o Cristo Senhor nos proteja e nos guarde. Amém!” (Liturgia da Vigília Pascal). Nesta noite santa, na mãe de todas as celebrações da Igreja, ninguém falte à renovação das promessas do Batismo, com as quais renunciamos a Satanás e suas obras e prometemos servir a Deus, na Santa Igreja Católica. É compromisso pessoal: “Renuncio! Creio!”. Então, numa explosão de alegria, participamos da Eucaristia, onde o Cristo vivo se faz presente em sua Morte e Ressurreição e se faz Comunhão!

Não se trata, pois, de assistir passivamente a representação de cenas passadas, ainda que emocionantes, mas de celebrar e viver a Páscoa. Se quarenta dias foram propostos para preparar a Páscoa, uma “cinquentena”, até o Pentecostes, será o período dedicado a aprofundar o que o Senhor, o vivente, aquele que é, que era e que vem, nos oferece.

A proposta para os cinquenta dias que se seguem vem do Papa Francisco, nas palavras dirigidas aos jovens e que todos nós, que qualquer idade, acolhemos com grande alegria: “Cristo vive! É preciso recordá-lo com frequência, porque corremos o risco de tomar Jesus Cristo apenas como um bom exemplo do passado, como uma recordação, como alguém que nos salvou há dois mil anos. De nada nos aproveitaria isto. Ficaríamos como antes, não nos libertaria. Aquele que nos enche com a sua graça, aquele que nos liberta, aquele que nos transforma, aquele que nos cura e consola é alguém que vive. É Cristo ressuscitado, cheio de vitalidade sobrenatural, revestido de luz infinita. Por isso dizia São Paulo: ‘Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé’ (1 Cor 15, 17). Mas, se Ele vive, então poderá estar presente em cada momento da tua vida, para enchê-lo de luz. Assim, nunca mais haverá solidão nem abandono. Ainda que todos nos abandonem, Jesus permanecerá, como prometeu: ‘Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos’ (Mt 28, 20). Tudo preenche com a sua presença invisível e, para onde quer que vás, lá estará Ele à tua espera. É que Ele não só veio, mas vem e continuará a vir todos os dias, para te convidar a caminhar para um horizonte sempre novo. Contempla Jesus feliz, transbordando de alegria. Alegra-te com o teu amigo que triunfou. Mataram o Santo, o Justo, o Inocente, mas ele venceu. O mal não tem a última palavra. Também na tua vida, o mal não terá a última palavra, porque o teu Amigo, que te ama, quer triunfar em ti. O teu Salvador vive. Se ele vive, isso é uma garantia de que o bem pode triunfar na nossa vida e de que as nossas fadigas servirão para qualquer coisa. Então podemos deixar de nos lamentar e podemos olhar para frente, porque com ele é possível sempre olhar para frente. Esta é a certeza que temos: Jesus é o vivente eterno; agarrados a ele, viveremos e atravessaremos, ilesos, todas as formas de morte e violência que se escondem no caminho.” (Cf. Exortação Apostólica Christus vivit, 124-127).

Para todos os irmãos e irmãs, santa, verdadeira e feliz Páscoa!

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Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo de Belém do Pará
Assessor Eclesiástico da RCCBRASIL