Há muitos séculos, em meio a grandes confusões e mal-entendidos doutrinários, houve cristãos que defenderam a ideia de que nossos templos não deveriam abrigar nenhuma imagem, nenhuma figura, nenhum símbolo. Movimentos assemelhados, em tempos e lugares, os mais diversos, também apregoaram que não deveríamos utilizar instrumentos musicais, nem elaborar arranjos corais, nem mesmo permitir que todas as pessoas cantassem em nossas celebrações.  Aquelas pessoas diziam simplesmente: “Deus não precisa de nada disso”.

Instada a se posicionar oficialmente, a Igreja sempre afastou tais proposições, reiterando diversas vezes a importância da arte na vida de seus fiéis.

De fato, devemos concordar que Deus não precisa de música, assim como também não precisa de vitrais, nem de imagens, de peças de teatro ou coreografias. Deus não precisa de arte. Deus não precisa de nada. Afinal de contas, Ele é Deus!

Mas Santo Agostinho – e muitos outros teólogos depois dele, incluindo desde Santo Tomás de Aquino até os papas João Paulo II e Bento XVI – explica que nós, cristãos, é que precisamos da arte como uma espécie de porta aberta para as coisas do Alto.

É que, em termos mais sistemáticos, a vontade e a inteligência humanas são sempre “ativadas” por faculdades como a imaginação e a memória. E essas duas faculdades, por sua vez, são alimentadas por nossas experiências estéticas e culturais. Em outras palavras: as belezas vistas, ouvidas e vivenciadas atuam em nosso ser como verdadeiros alimentos intelectivos absorvidos pelos sentidos, possuindo o poder de elevar nossa mente e nosso coração em direção a Deus.

A poderosa simplicidade da arte dos primeiros cristãos, os intrigantes olhares dos ícones, os magníficos vitrais de nossas gigantescas catedrais, as envolventes melodias do canto gregoriano… todas essas expressões artísticas são testemunhos poderosos de como a habilidade de artistas de todos os tempos sempre serviram como catalisadores e alimentos para a espiritualidade cristã.

Nos dias de hoje não é diferente. Vejam os ambientes por onde transitam as experiências carismáticas, por exemplo. Textos e melodias de nossas canções falam e agem em nossa consciência, em nosso coração, nos levando a reavaliar nossas atitudes e nossa postura em relação a Deus e a nossos irmãos. Gestos e movimentos oracionais… de louvor (elevar os braços), de reflexão (abaixar o olhar), de adoração (pôr-se de joelhos), de fraternidade (abraçar o irmão) e tantos outros, são como desenhos corporais traçados no espaço sagrado de nossas igrejas, de nossos locais de oração. Tudo isso pode vir a ser arte… arte sagrada… arte a serviço da salvação.

Assim, um bom desafio para nossa Quaresma pode ser iniciarmos um caminho de maior conscientização de nossa relação com a Arte Sacra – de todos os tipos, tempos e lugares. Quem sabe, pode ser justamente essa a chave para uma profunda transformação em nossa espiritualidade!

 

João Valter Ferreira Filho

Ministério de Música e Artes