Ao celebrar a solenidade da Ascensão do Senhor, a Igreja também convoca todos os fiéis a participarem do Dia Mundial das Comunicações. É assim há 53 anos, desde 7 de maio de 1967, sempre oferecendo ao mundo uma reflexão sobre os desafios do homem atual e sua relação com os meios de comunicação social à luz do Evangelho. No último dia 24 de janeiro, memória de São Francisco de Sales, o Papa Francisco divulgou sua Mensagem ao 53º Dia Mundial das Comunicações. Para os que creem que são parte de um único corpo — cujo Cristo é a cabeça – a Carta é uma intimação urgente à coerência: ou o cristão é um com seu semelhante, ou então é melhor deixar a internet. A exortação é carinhosa, porém firme, em tempos de ódio e de divisão no mundo digital.

Primeiramente, o Papa Francisco nos convida a voltar à essência do que realmente é a internet: uma grande rede mundial de pessoas conectadas. Através desta metáfora-palavra, quase apagada pelos nativos digitais, recorda que a razão de existir da social web é a vida em rede. Na rede todos compartilham um objetivo único. Rede está para colaboração, para solidariedade, para união, e não para o isolamento ou o ódio. Seria incoerente.

Outra metáfora utilizada pelo Papa Francisco é a figura da Comunidade. Ele parece não entender como as redes sociais não são verdadeiras comunidades humanas. Uma preocupação são as pessoas que só se identificam como pessoas, ou seja, só firmam suas identidades, quando discordam ou contrapõem as outras. Daí nasce o ódio, que exclui e mata.

“Na social web, muitas vezes a identidade funda-se na contraposição ao outro, à pessoa estranha ao grupo: define-se mais a partir daquilo que divide do que daquilo que une, dando espaço a todo tipo de preconceito (étnico, sexual, religioso e outros)”

O isolamento é outro ponto de atenção grifado pelo Papa, sobretudo o dos adolescentes, vítimas mais nocivas de um fenômeno chamado “eremitas sociais”. Os adolescentes tendem a acreditar que a web pode satisfazê-los completamente a nível relacional. Só que não! Francisco alerta: “não basta multiplicar as conexões”. Estar conectado não significa estar em relação.

O Papa termina com uma última metáfora, a do Corpo. Retoma a carta de São Paulo aos Efésios (4,25), quando o apóstolo exorta: “Por isso, despi-vos da mentira e diga cada um a verdade a seu próximo, pois somos membros uns dos outros”. Essa é a fonte da paz mundial: lembrar que estamos todos ligados uns aos outros, que somos uma grande Comunidade Humana. Quem nega a mútua relação de comunhão, quem semeia a indiferença, quem se separa do seu semelhante, não está em conformidade com o cristianismo.

É por isso que agredir o próximo na rede social (seja por motivação política, moral etc.) e/ou compartilhar Fake News sem pensar na pessoa prejudicada, nos torna egoístas, mentirosos, e não cristãos. Sabemos bem quem é o pai da mentira.

Na Mensagem anterior, em 2018, Francisco exortou sobre o tema “Fake news e jornalismo de Paz - A verdade vos tornará livres” (Jo 8,32). Falou sobre o termo grego aletheia (de a-lethès, não escondido) e pediu que sejamos anunciadores da paz e não caiamos na tentação de compartilhar o “bizarro” e o sensacionalismo.

Finalizando a Mensagem deste ano, o Papa retomou um conceito sociológico muito interessante, o deAuteridade, que vem do Latim alteritas. Significa que a existência do “eu-individual” só é possível mediante o contato com o outro. Compreender isso nos afasta da necessidade de ver o outro como inimigo. “Só sou verdadeiramente humano, verdadeiramente pessoal, se me relacionar com os outros”. O outro é parte de mim, nunca um inimigo fora.

“Já não tenho necessidade do adversário para me autodefinir, porque o olhar de inclusão, que aprendemos de Cristo, faz-nos descobrir a alteridade de modo novo, ou seja, como parte integrante e condição da relação e da proximidade.

Francisco pede para investirmos nas relações. Convoca com firmeza que os cristãos deem testemunho da própria identidade de crentes: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei” (Jo 15, 12). Também pede para que haja mais contato presencial, mais interação, mais encontros, nas famílias ou nas comunidades eclesiais. É preciso passar do “like” ao “amém”.

É de fácil compreensão. Não importa como votou nas últimas eleições ou como se “comporta” o meu próximo. Não importa se é de Direita ou de Esquerda. Não importa se crê ou não crê na mesma fé que eu. A internet é uma comunidade onde todos nos encontramos. E onde todos podemos nos aproximar e compartilhar ideais comuns. Não é um campo de batalha. A outra pessoa é tão importante para mim, na rede ou fora dela, que só me resta amá-la! É tempo de resgatar o imperioso testemunho de amor e unidade que se espera de cada católico.

 

Jersey Simon

Coordenador Nacional do Ministério de Comunicação da RCCBRASIL